Saúde

O envelhecimento e os hormônios.

Quando fazer reposição?

Como parte natural do envelhecimento, o sistema endócrino sofre diversas alterações consideradas normais nesta fase da vida. Alguns dos hormônios que mais sofrem alterações em suas concentrações são o hormônio do crescimento (GH), tireóide, estrogênio, testosterona e DHEA.
Quando se fala em envelhecimento saudável, logo surge a dúvida: Quando e como saber se esta redução nos níveis destes hormônios é normal para a idade, fazendo parte do processo natural de envelhecimento, ou é algo fora do considerado saudável, e por isso precisa ser feita reposição hormonal?

No post de hoje vamos falar sobre o GH

O GH, que é o hormônio do crescimento, é produzido pela hipófise, uma glândula pequena localizada na parte inferior do cérebro. Para ele exercer seus efeitos no organismo, ele utiliza um intermediário, o IGF1. É através dele que o GH promove o crescimento. Outras funções importantes dele são aumento da síntese proteica, o que ajuda a formar músculos, e aumento da lipólise, isto é, da queima da gordura estocada.
Com o envelhecimento, há uma redução normal na síntese e secreção do GH, e consequentemente do IGF1. Este processo, que é natural, pode ser atenuado se a pessoa:

1 – se mantiver fisicamente ativa, uma vez que a atividade física aumenta a secreção de GH
2 – mantiver peso dentro do normal, evitando sobrepeso e obesidade, que causam redução do GH
3 – buscar uma boa qualidade do sono, pois quando ele é afetado, há uma piora na secreção do GH.

Apesar de todos os indícios apontando que a queda dos níveis do GH são consequência e não causa do processo de envelhecimento, diversos estudos foram feitos visando “modular” os níveis deste hormônio na tentativa de manter o bem estar e a juventude. Porém, os resultados foram contraditórios ou decepcionantes. Um dos estudos mais bem desenhados sobre o assunto, publicado na revista médica JAMA em 2002, mostrou que o uso do GH ajudou a aumentar a massa muscular, reduzir a massa gordurosa e a melhorar a performance atlética de maneira muito sutil. Contudo, efeitos adversos como inchaço, dores nas juntas, síndrome do túnel do carpo e diabetes foram muito frequentes, o que levou os pesquisadores do estudo a concluir que este tipo de tratamento não deve ser usado, pois os prejuízos à saúde são maiores que os benefícios.

Em 2007, uma extensa revisão de toda a literatura médica sobre o uso do GH como tratamento “anti-aging“ reviu dados de 18 estudos e revelou que foram estudos que não duraram mais do que 6 meses, limitando a capacidade de avaliar benefícios e principalmente os possíveis riscos a saúde. Ainda mostrou que o GH não emagrece e a mudança na composição corporal com ganho leve de massa muscular não foi capaz de reduzir os níveis de colesterol nem de melhorar a massa óssea. E o principal, os pacientes que fizeram uso de GH apresentaram efeitos adversos como inchaço, dores nas juntas, síndrome do túnel do carpo, glicose elevada, diabetes e ginecomastia (crescimento de mamas em homens).

Uma vez que não indicamos e não é considerado um hormônio a ser reposto para atenuar sintomas do envelhecimento, não há indicação de ser feita dosagem de seus níveis em exame de sangue de rotina. Só é feita investigação de deficiência do GH se houver alguma suspeita de doença afetando sua produção. E, para isso, o paciente precisa ser avaliado por um médico especialista em endocrinologia. Vale a observação de que dosar GH isoladamente e sem uma indicação correta só trará dúvidas, uma vez que este hormônio tem secreção pulsátil e que é afetada por vários fatores. O médico especialista sabe que, se for necessário avaliar os níveis de GH de um paciente, outros hormônios, mais específicos, serão necessários.

Concluímos que, salvo em doenças em que há uma deficiência real de GH no adulto (exemplos: alguém que fez uma cirurgia na hipófise que afetou a produção deste hormônio ou em que a hipófise foi afetada por uma doença infecciosa ou autoimune) o uso do GH não está indicado. Usá-lo em terapia de “modulação hormonal” oferece um ganho muito discreto às custas de efeitos adversos muito frequentes, inclusive desenvolvimento de doenças como diabetes e alguns tipos de câncer.

Na próxima semana falarei sobre outros hormônios e seus papéis no envelhecimento

Matéria feita por Dra. Patrícia Peixoto CRM 52700134 – Médica Endocrinologista

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